O EXEMPLO PODEROSO DO PADRE SÉRGIO, UM MONGE ORTODOXO: A luta extrema para manter a fé e ser fiel às próprias convicções.


Paulo Henrique Cremoneze

Lev (ou León) Tolstoi, um dos maiores escritores de todos os tempos, expoente da escola russa de literatura, homem de grande devoção cristã (era ortodoxo de formação), sempre exaltou as virtudes cristãs em suas obras e, igualmente, evidenciou a importância do espírito de luta para a integridade da fé e uma vida virtuosa. Numa delas, chamada “Padre Sérgio”, ele mostra a intensa luta que o personagem principal, Padre Sérgio, travava consigo mesmo em busca da maior intimidade com Deus. O piedoso padre, monge ortodoxo, era constantemente arrebatado por crises vocacionais, indagando-se em noites sombrias, se era mesmo à vontade de Deus para ele à vida religiosa e monástica. Os apelos da carne castigavam-lhe a alma, a vaidade e a soberba de tempos passados, idem. E quanto mais ele mergulhava na vida monástica, quanto mais deixava seu coração arder pelo silêncio e pela leitura da Bíblia, quanto mais orava piedosamente, suplicando ao longo do dia, muitas vezes, “Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, Czar dos Czares, tem pena de mim, um pecador”, mais ele era açoitado por dúvidas e mais ele se dava conta de sua natureza pecadora e do quanto ainda precisava prosseguir na fé para vencê-la. Ele não recuava, mas avançava na vida espiritual, dentro de sua ermida, perto do mosteiro em que oficiava. Certa vez, uma abonada e bela dama da alta nobreza russa, com vida destinada aos muitos prazeres, sabendo da fama de santo homem do Padre Sérgio, resolveu tentá-lo. O Padre Sérgio, antes de se converter, era oficial do exército imperial russo, homem de hábitos refinados e muito bonito, acostumado aos prazeres e jogos de sedução da vida palaciana. “Deveria, pois, se lembrar de sua antiga vida”, ela pensou. O prazer de tirar o santo homem de seu caminho a motivava mais, aquecendo-lhe o coração frívolo. 
E ela, depois de ter arquitetado um ardil, bateu à porta da ermida do Padre Sérgio, dizendo-se perdida do seu grupo e que o frio cortante e as botas encharcadas iriam matá-la se ele não a acudisse. Como bom cristão, ele a recebeu em sua cela e percebendo o artifício, deixou-a num canto e foi para outro, prostrou-se ao chão, pôs a face na terra, elevou às mãos ao céu e rezou, rezou, rezou. A mulher continuou seu jogo de tentação e despiu-se dizendo que estava molhada, pedindo falsamente para que ele não aparecesse naquele momento. Religioso ou não, ela pensou, sacerdote ou não, monge ou não, Sérgio era homem e homem viril, portanto, os apelos dos instintos seriam mais fortes do que os da vida consagrada. Ela percebeu a intensa batalha dele e excitou-se mais ainda, até que se fingindo febril e alegando dores suplicou, em nome de Cristo, a presença do padre para ajudá-la. Ele não queria ir, mas ao mesmo tempo desejava ir ao encontro dela. Sua fé lutava contra o desejo que ardia em seu feito e se espalhava como fogo por todo o seu corpo. Seu coração comandava algo, mas seu corpo reclamava outro algo, oposto. Ele não querida testar suas próprias forças e, prudentemente, não se quis por em flerte com a tentação. Mas, deixar de atender à súplica da mulher, que ele não sabia ser verdadeira ou não, poderia ser falta de misericórdia e um contra-testemunho. Então, após um suspiro de fé, ele resolveu o dilema, pegou a machadinha de rachar lenha e cortou violentamente, num só golpe, um dos dedos da mão. A dor intensa o trouxe de volta à realidade e o fez se lembrar de Jesus na cruz. Com a dor, ele poderia encarar a mulher sem desejá-la, pois a dor eclipsava o ardor do desejo e o fazia pensar somente em Deus. E assim o fez, envolveu a mão ferida num pano e foi até o encontro dela. A mulher viu o sangue que escorria da mão do padre, encharcando o pano que a envolvia, em que pese o esforço do Padre para escondê-la e então ela entendeu tudo, envergonhou-se e saiu da ermida correndo, chorando copiosamente, caindo em si, encarando sua vida vazia e o quanto ela foi instrumento de servidão do mal. Aquele encontrou mudou o coração da dama e ela largou tudo e ingressou num monastério. A história da luta de Padre Sérgio, como ele vencera com ato extremo a tentação e como seu exemplo convertera a mulher de vida libertina, espalhou-se e muitas pessoas o tiveram como verdadeiro imitador de Cristo, um santo vivo, acorrendo ao seu encontro para orientações espirituais, para rezar ao lado dela e para ouvi-lo falar das Sagradas Escrituras. 

Claro que não precisamos de atos extremos como o do Padre, mas sua experiência, magistralmente decantada por Tolstoi, é poderoso exemplo para todos nós acerca do espírito de luta e de como temos que estar atentos e vigilantes o tempo todo, sermos fortes na oração e, com menos traumas, claro, sermos até mesmo radicais na defesa do que entendemos ser o caminho que nos leva ao coração de Deus. É possível que venhamos a perder muitas batalhas, afundarmos nos maus hábitos do passado, não exterminados dos nossos corações, mas, com constância, com firmeza, conseguiremos triunfar se não esmorecermos o espírito de luta e nos empenharmos no uso freqüente das virtudes. O exemplo do Padre Sérgio diz respeito à questão sexual, uma das quais mais facilmente sucumbimos, mas serve como luva à mão à qualquer aspecto relevante de nossas vidas que carece de transformação, de mudança, de expiação para a purificação. 

O próprio Senhor fez uso de linguagem exaltativa e com tons dramáticos ao falar do espírito de luta no combate ao pecado: “Se o olho direito leva você a pecar, arranque-o e jogue-o fora! É melhor perder um membro, do que o seu corpo todo ser jogado no inferno. Se a mão direita leva você a pecar, corte-a e jogue-a fora! É melhor perder um membro do que o seu corpo todo ir para o inferno.” (Mt 5,29-30). 

Evidentemente que o Senhor não quis e quer que ninguém saia por aí se auto-mutilando, cegando-se e amputando-se, até porque o corpo é o lugar que mais reclama as sensações e os afetos desordenados, mas é, também e acima de tudo, o templo em que Ele mesmo habita e que, portanto, se reveste de santidade. Mas, ao fazer uso de imagens fortes, o Senhor nos admoestou de forma enérgica e severa no combate ao pecado, na importância de se lutar e de não pouparmos esforços. Arrancar e jogar fora o olho e cortar e jogar fora a mão são comandos que devem ser entendidos como a eliminação radical e absoluta do pecado em nossas vidas. Não há espaço para tergiversações. Qualquer abrandamento será relativismo moral e, consequentemente, algo contrário à Palavra de Deus. As quedas, mesmo as mais graves e vergonhosas, não devem nos assustar, tampouco desmotivar no caminho da santidade, mas serem tidos como alertas de nossa concupiscência e de nossa fraqueza, exigindo-se cada vez mais o fortalecimento do nosso espírito e cada vez mais intensidade em nossa luta. E sempre que cairmos, muito nos aproveitará lembrar das palavras de São Bernardo de Claraval que nos disse que tão ou mais grave do que o pecado é a sua justificação. Assim, se pecarmos (e certamente pecaremos, mesmo os que têm fé), que possamos nós reconhecer nossas faltas e empregar esforços para não repeti-las.




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